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Com azeite de oliva e maçarico, museu de Porto Alegre restaura canhões da Revolução Farroupilha; veja como ficaram
GZH

Nove canhões utilizados na Revolução Farroupilha (1835-1845) passaram por restauração no Museu de História Julio de Castilhos, em Porto Alegre. O processo artesanal envolveu até o uso de azeite de oliva.
A diretora do museu, Doris Couto, conta que três desses canhões estiveram com as tropas do general Giuseppe Garibaldi, que lutou ao lado dos rebeldes farroupilhas contra o Império do Brasil. Foram conduzidos em um lanchão sobre uma carreta pelos campos alagados em direção ao Rio Capivari, em Capivari do Sul, no Litoral Norte. Na sequência, participaram de operações a bordo das embarcações Seival e Farroupilha na Lagoa dos Patos.
— Para que os canhões não caíssem em posse das forças imperiais, o comandante dessa esquadra ordenou que fossem jogados na foz do Arroio Santa Isabel, em Camaquã. Assim foi feito, e eles permaneceram enterrados. Em 1925, teve uma seca na foz do arroio, e os canhões afloraram. Foram retirados e depois doados ao Museu Julio de Castilhos — relata Doris.
Nem todos os canhões foram encontrados no mesmo local. Um estava no canal São Gonçalo, em Pelotas, na Região Sul; outro na Biblioteca Pública da mesma cidade; enquanto um terceiro foi achado no Centro de Porto Alegre. Os demais estiveram no Forte de Caçapava do Sul, na Campanha.
A recuperação dos canhões ocorreu paralelamente ao restauro do prédio do museu, que foi fechado temporariamente em dezembro de 2024. A estimativa da direção é que seja reaberto no segundo semestre de 2027.
Balas não usadas foram encontradas nos canhões
Os nove canhões estavam expostos em uma base de tijolos e cimento no pátio do museu. O trabalho de remoção para o restauro foi difícil, pois o armamento mais leve pesa 1,2 tonelada. Dessa maneira, foi necessário construir uma estrutura metálica para erguer os canhões e levá-los para o fundo do jardim.
— Primeiro, fizeram uma limpeza geral. Depois, foi feito o selamento desses canhões usando azeite de oliva aquecido com maçarico. Foi uma forma de produzir uma película para que eles se tornem mais resistentes às questões climáticas — explica Doris.
Durante o processo de restauro, os profissionais encontraram três balas não deflagradas dentro dos canhões. A munição, que apresenta sinais de oxidação, ainda não passou por restauro.
Restauro foi artesanal e durou quatro meses
A restauração dos nove canhões ficou sob responsabilidade da equipe do Studio1 Arquitetura e do restaurador Ricardo Cardoso. O trabalho envolveu medições das peças e até avaliações do nível de oxidação do material.
O arquiteto do Studio1 Arquitetura Lucas Volpatto menciona que o processo de restauro ocorreu de forma artesanal e durou quatro meses.
— O ferro foi queimado com gás e azeite de oliva para poder revitalizar o ferro oxidado — explica, acrescentando que a medida auxilia na remoção da ferrugem.
"Manter canhões como estes é fundamental para que os mais jovens e os que vierem depois de nós possam pensar na sua contribuição para a guerra e para a paz." - Doris Couto / Diretora do Museu de História Julio de Castilhos.
O trabalho representou um desafio para a própria equipe, que costuma ser contratada para restaurações de igrejas, obras de arte e objetos relacionados ao mundo eclesiástico.
— Dessa vez, era um objeto bélico. Há uma contradição entre o bélico e o sagrado — compara Volpatto. — Mas, para nós, a maneira de enxergar esse objeto não entra no mérito belicoso, e sim no símbolo histórico e identitário do Estado.
Os antigos instrumentos de guerra, que receberam uma base de madeira maciça nova, poderão ser visitados quando o Museu Julio de Castilhos for reaberto ao público, provavelmente no segundo semestre de 2027.
A diretora do museu reflete:
— Em tempos de guerra com uso de drones e tecnologias de alto poder de destruição, manter canhões como estes é fundamental para que os mais jovens e os que vierem depois de nós possam pensar na sua contribuição para a guerra e para a paz.
Museu terá novo edifício para reserva técnica
A grande novidade do restauro do Museu Julio de Castilhos, que ocorre paralelamente à recuperação dos canhões, será um edifício de três pisos que abrigará toda a reserva técnica do museu, ou seja, as peças que não estão em exibição.
A construção pode ser visualizada junto ao pátio do local. O prédio terá pé direito alto e climatização 24 horas por dia.
— Hoje, temos quatro reservas técnicas em espaços que poderiam ser salas de exposição, e serão. Quando o museu for reinaugurado, terá uma área exclusiva de reserva técnica — antecipa a diretora.
As obras no museu começaram pelo telhado. Essa primeira etapa foi concluída em março de 2025. As telhas históricas foram mantidas. Neste momento, intervenções podem ser vistas nas salas, com mobiliário coberto por lonas e movimentação de operários. As últimas ações envolverão a parte elétrica e a pintura.
Outra novidade é que o museu voltará a contar com uma pinacoteca de pinturas históricas. Todas as pinturas estão sendo restauradas. Haverá obras relacionadas aos períodos do Brasil Império e do Brasil República. Nos anos 1950, o local manteve uma pinacoteca.
Financiada pelo governo estadual, por meio do programa Avançar na Cultura, a restauração do museu está orçada em cerca de R$ 11,5 milhões, sem considerar os recursos para o novo projeto expográfico para o dobro de salas e o mobiliário destinado para a nova reserva técnica.
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(Imagens: Duda Fortes - Grupo RBS / MHJC - Divulgação / Studio1 Arquitetura Divulgação)